St. Justin Martyr

O longo dedo em riste

Tanto o profeta quanto o filósofo estendem seus dedos e apontam: o profeta aponta indicando; o filósofo salientando. Mas ambos apontam. Ao fazer isso, eles se esforçam para levar ao seu alvo final aquele ato espontâneo de apontar que iniciou quando ainda eram crianças. Ninguém precisa ensinar um bebê a apontar, pois desde que nasce do ventre materno, ele aguarda pelo dia em que seus dedos inarticulados, que chupa, sacode e agita, possam finalmente convergir naquele precioso momento que dá surgimento à significação. De repente, um pequeno dedo indicador gordinho estira-se, subitamente, tal qual um revólver, e aponta o mundo.

Os bebês estão procurando por sentido no mundo maravilhoso e assustador ao seu redor; em sua inocência, já estão em busca de uma resposta. Mesmo antes de falar, o dedo em riste é acompanhado pelos olhos da criança que incontestavelmente questiona: “Que raios é isso?! Será aquilo?” Os profetas também estão à espreita, em busca do Logos, sejam eles profetas judeus ou muçulmanos, bodhisattvas budistas ou avatares hindus; eles percorrem, com seus dedos estendidos, um conjunto de candidatos, tentando identificar Aquele que está por vir. Os filósofos também estão em busca do Logos, embora o procurando mais nas ideias e nos argumentos que nas pessoas; mas, de igual maneira, observam e apontam.

Um bom cristão respeita e honra todos os profetas por suas tentativas de finalmente apontar a suprema Palavra da Verdade, e também todos os filósofos por tentarem apontar o sentido que ela implica. Mas em meio a um mundo de cultos e crenças, fés e ideologias conflitantes, eles apenas se deparam com aproximações e, por vezes, distorções; um borrão aqui, uma névoa acolá – em lugar nenhum aquele Logos totalmente delineado que tanto almejamos ver. Até que, é claro, um dedo famoso se estende.

Finalmente nossa atenção é direcionada para o Logos em 4K, em clara e inconfundível alta definição, pelo longo dedo indicador do último profeta do Antigo Testamento, São João Batista. Mediante os nós desse dedo, de junta a junta, tanto os olhos penetrantes dos vários profetas do mundo quanto as mentes questionadoras de milhares de filósofos estão destinados a viajar. Com alívio e gratidão eles finalmente fixarão seus olhos naquilo que o desalinhado Batista está apontando, enquanto proclama: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira os pecados do mundo!”

Matthias Grünewald (1470-1528) Retábulo de Issenheim

 

 

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