St. Justin Martyr

Chesterton sequestrado

No ano que vem, vou celebrar 50 anos de leitura das obras de G.K. Chesterton, e um pouco menos de leitura de Tomás de Aquino. Mas apesar da minha satisfação inicial ao ver o autor inglês ser cada vez mais aceito e lido no Brasil, ultimamente tenho mais preocupações do que satisfação. Vejo hoje mais do que nunca quão fácil é sequestrar esses gênios gordinhos para ideologias magrinhas e militantes. Sobre esse perigo no caso do maior progressista do século XIII – yes! I am talking about Aquinas! – já escrevi um post: Tomás, tomismos e tomistas. Hoje vejo a necessidade de fazer algumas observações análogas sobre os entusiastas pelo jornalista inglês, os quais facilmente perdem toda perspectiva histórica.

Tenho estranhado bastante, nos últimos anos, ao ouvir Chesterton sendo celebrado como campeão do “conservadorismo” no Brasil, até como alguém que teria aplaudido o governo atual. Tenho minhas dúvidas.

Em termos morais, é claro que GKC defendeu o casamento tradicional, a dignidade da pessoa humana e a santidade da vida desde a conceição até a morte natural. Mas ele defendeu tais valores no pano de fundo da sua própria vida que exemplificou, até dramaticamente, a primazia do amor. Todo mundo sentiu-se amado por Chesterton, especialmente seus rivais intelectuais. Sempre engajou eles com respeito e justiça, imitando nisso a prática de Tomás de Aquino, que permitiu as posições contrárias às dele serem apresentadas na forma mais convincente e elegante possível (as famosas “objeções”). Como Tomás, Chesterton nunca desceu à linguagem da sarjeta – sempre um sinal exterior de baixaria interior. Conservadores críticos que não conseguem falar dos seus oponentes sem fazer referências a um certo orifício do corpo humano são tão longe da mente e do espírito de Chesterton que fica risível mencionar seus nomes no mesmo texto com o nome dele. Um homem de fé, Chesterton foi amigo genuíno com ateus com os quais descordou profundamente. Amava H.G. Wells e Bernard Shaw tanto quanto foi amado por eles. Não foi só teatro.

Mas em termos políticos, Chesterton não foi visto por seus contemporâneos como conservador, mas mais como crítico severo de vários pilares do conservadorismo britânico da época (colonialismo, Império Britânico, os privilégios das classes ricas, e até a Igreja “oficial” do Reino, o anglicanismo). Defendeu democracia e republicanismo, e até manifestou (algo para mim meio lamentável) uma admiração qualificada pela Revolução Francesa.

Aliás, em termos econômicos seria ainda mais implausível hastear a bandeira do conservadorismo de hoje, com uma imagem sorridente de Chesterton flutuando no vento. As encíclicas papais, desde Rerum Novarum (1893), as quais Chesterton elogiou e recomendou – especialmente desde sua conversão ao catolicismo em 1922 – pareceriam quase socialistas para o conservador de hoje. Mais ainda, a promoção do programa do “distributismo,” elaborado e exposto em uma série de livros dele, do seu amigo Hilaire Belloc, Eric Gill e outros – por mais problemático na implementação prática – está em descompasso irreconciliável não só com um socialismo esquerdista mas ainda mais com qualquer versão conspícua da direita econômica da atualidade (seja liberal ou monárquica).

Além do mais, o fato de Chesterton ser católico é usado, às vezes, como comprovante do seu “conservadorismo.” Nada pode estar mais longe da verdade. As encíclicas sociais já provam isso. Mas a mesmíssima igreja à qual Chesterton jurou obediência incondicionada ia convocar o Segundo Concílio Vaticano, o concílio mais abrangente e global da história da igreja, e um que reorientou a postura da igreja para com o mundo moderno, o ecumenismo e as religiões mundiais. Posso afirmar que se Chesterton estivesse vivendo hoje, sem dúvida alguma, ele estaria lendo os documentos daquele concílio e promovendo a interpretação correta dos seus “desenvolvimentos” da doutrina cristã. Proponente audaz de uma tradição viva e aventureira, ele ficaria longe de qualquer tradicionalismo, com suas tendências de tratar a igreja como se fosse um museu.

Sei que o conservadorismo atual é diversificado e nem todo aderente vai mostrar simpatias anti-semíticas. Mas precisa ser dito que acusações de tais convicções em GKC são sem fundamento. Ele escrevia demais – na época, foi pago por página e teve que viver deste trabalho. De vez em quando podia deixar escapar uma ou outra frase infeliz. Mas Ann Farmer escreveu um livro de mais de 500 páginas, perscrutando toda essa obra oceânica, e conseguiu desmentir essas acusações de forma justa e concludente. (Chesterton and the Jews) De qualquer modo, o cara morreu em 1936, antes da Segunda Guerra e antes da revelação dos massacres nos campos de concentração. Advertências dele, porém, sobre o perigo que estava crescendo na Alemanha são bem documentadas nos seus escritos dos anos 30. Ele se distanciou tanto do fascismo quanto do comunismo.

Chesterton foi um pensador profundo e aberto. Para imitá-lo hoje temos que engajar nosso mundo contemporâneo com a mesma profundeza e abertura com que ele enfrentou o mundo dele. E esses dois mundos são, em muitos detalhes, incomensuráveis. Precisamos da sabedoria profunda delineada tanto no Concílio Vaticano II quanto nas encíclicas mais recentes dos papas. Raízes profundas permitem ramos extensos.

A guisa de conclusão, incluo o último parágrafo de um texto meu de 2016:

“Eu descobri Chesterton como universitário, então sei que pessoas nessa faixa de idade podem ler e amar nosso autor. Já introduzi inúmeros alunos ao GKC na universidade onde leciono. Porém, há um obstáculo que deveria ser desmontado. Chesterton não foi, pura e simplesmente, um ‘conservador’, nem foi um militante ‘da direita’. Essas categorias desvirtuam a vastidão da visão e a hospitalidade intelectual de Chesterton. Não há dúvida de que ele promoveu valores tradicionais e poderia ser visto como representante (com certas ressalvas) de uma ‘filosofia perene’. Mas insistiu que a verdade seja vista, experimentada, saboreada, curtida, e não apenas conservada em vinagre por causa da sua antiguidade. E, para ele, quem não percebe a ‘novidade surpreendente’ das grandes verdades, não as entendeu. Ele teria concordado com Confúcio quando falou que alguém pode ser um mestre somente quando consiga produzir novidade pela preservação da tradição. Também no campo socio-econômico, o pensamento chestertoniano não aceita categorização ideológica. O ‘distributismo’ econômico, defendido resolutamente por Chesterton, seria visto como quase marxista por alguns conservadores da direita, e como suspeitamente medieval por alguns radicais da esquerda. *** Quero que todo mundo possa abrir os livros de Chesterton, não apenas aqueles que pretendem usá-lo para minar argumentos apologéticos ou simplesmente confirmar crenças que já têm. Chesterton é um descobridor, um aventureiro intelectual e imaginativo, e só quem esteja aberto a aprender de novo, e ter suas convicções desafiadas e talvez rejuvenescidas de forma inédita, vai receber a luz e a adrenalina que suas obras oferecem.”

(trecho da entrevista publicada há cinco anos no site da Sociedade de Chesterton:

https://www.sociedadechestertonbrasil.org/scb-entrevista-scott-r-paine-autor-do-livro-chesterton-e-o-universo/)

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