St. Justin Martyr

Tomás, tomismos e tomistas

Foi no ano 1966 que eu, pela primeira vez, segurei em minhas mãos um livro de Tomás de Aquino. Uma escola ursulina perto da minha casa estava vendendo livros antigos do seu acervo e eu – já na adolescência um bibliófilo – fui buscar algumas pechinchas. Após ter selecionado três ou quatro títulos de interesse mais geral para minha biblioteca, deparei com um livro publicado na edição do “The Modern Library”:

Folhei um pouco no livro (mais de 700 páginas!) e fiquei impressionado pela letra pequena, o número de páginas e a variedade de assuntos abordados (corpo e alma, intelecto, justiça, temperança, Deus, criação, etc.). Infelizmente, coloquei o livro de volta na pilha de volumes à venda. Só o nome do santo ficou gravado na minha mente.

Foi apenas no início dos anos 70 que voltei a buscar e, dessa vez, ler os textos de Tomás de Aquino. Desde então a leitura de Tomás virou um marco permanente da minha atividade mental. Nos anos de estudo no Angelicum em Roma aproveitei a mestria de um grande estudioso de Tomás, Clemens Vansteenkiste OP (o editor, por anos e anos, da única revista de resenhas dedicada totalmente a Tomás – em qualquer língua que seja). Ele foi meu mentor por alguns anos, e tive também o privilégio de conhecer e falar algumas vezes com o grande Cornelio Fabro (os dois não concordaram em tudo!).

Alguns anos depois comecei meu magistério, sempre alimentado pelas páginas das obras de Tomás. Desde 1989 até hoje, tenho ensinado várias disciplinas inspiradas pelas teses de Tomás (especialmente metafísica, epistemologia, lógica e antropologia filosófica). Também, já durante 25 anos, ensinei a História da Filosofia Medieval, com a metade de cada semestre dedicada ao Doutor Angélico. Além de alguns artigos publicados no Brasil especificamente sobre Tomás (sobre a relação entre Platão e Aristóteles nos seus escritos, sobre a relação entre intelecto e razão, e sobre a noção do signum), minha dedicação aos desafios provindos da Filosofia Oriental me levou às obras de um outro grande estudante de Tomás, Richard De Smet SJ. De Smet passou 50 anos na Índia, onde ele confrontou a metafísica e antropologia de Tomás com a filosofia de Shankaracharya, da tradição vedantina. Eu também publiquei dois artigos sobre este pioneiro e a sua obra e quero fazer mais.

Mas agora, em 2021, descubro que meu amor por Tomás (ainda em pleno vigor) não é sempre acompanhado por uma valorização comparável dos vários ‘tomismos’ que tem sido gerado no século XX sob a influência da encíclica de Leão XIII, Aeterni Patris (1879) – a não falar dos ‘tomistas’ (suspiro!). Foi esse papa que exigiu, via de regra, o uso das obras de Tomás como base para o ensino de filosofia e teologia no mundo acadêmico. Com a vasta influência do papa e a rede global de instituições católicas do ensino superior, o século passado produziu uma cornucópia de dissertações, teses, livros, dicionários, congressos, estudos de todos os tipos e sobre todos os assuntos imagináveis – tudo o que, de qualquer forma, toca em Tomás de Aquino.

Mas houve um resultado imprevisto. A fecundidade da mente de Tomás inseminou tantos rumos de pensamento, tantas possibilidades de desenvolvimento das ideas dele, que acabamos hoje com pelo menos oito tomismos:  1) a neoescolástica (Garrigou-Lagrange); 2) tomismo ‘transcendental’ (Maréchal); 3) tomismo ‘existencialista’ (Gilson); 4) tomismo ‘fenomenológico’ (Wojtyla, von Hildebrand); 5) tomismo ‘platonisante’ (Fabro?); 6) tomismo ‘aristotélico’ (de Koninck, River Forest); 7) tomismo ‘analítico’ (Haldane); e 8) tomismo ‘semiótico’ (Deely). (Um ou outro etiquete pode ser disputado, e outros representantes indicados, mas a rica variedade de versões transcende a nomenclatura.)

Vejo essa envergadura de abordagens e métodos como algo positivo. O que lamento é que membros de uma ou outra orientação tem a tendência de absolutizar seu trajeto e desqualificar os outros como ‘não-tomistas’ (ou poluído por influências alheias). Especialmente no estilo do catolicismo barroco, ‘contra-reforma’ – sempre deslizamos em exageros quando nos definimos a nós mesmos com um ‘contra’ – houve propensões menos fiéis ao espírito do Tomás. Tendências hiperjurídicas, obcecadas, às vezes, somente em definições nítidas e determinações sobrecarregadas entraram nas exposições do tomismo. Virou facilmente um dogmatismo de fórmulas repetidas e com pouquíssimo aprofundamento teórico.

Mas é a coruja, com seus grandes olhos abertos, que é símbolo para sabedoria, não o papagaio. Tomás teria detestado tal abuso ideológico de um pensamento como seu – tão aberto, aventureiro e audaz. O surgimento das teologias de ressourcement serviu de um saudável contraponto a alguns tomismos – como o transcendental, o neoescolástico e o aristotélico – que acabaram virando meio ditatoriais. Chegou o momento agora de aproveitar as intuições e descobertas comprovadas de cada um desses ramos do tomismo. Pessoalmente vejo o tomismo semiótico o mais promissor.

Quero também lembrar que Tomás de Aquino não é – como enfim ninguém pode ser, a não ser o Verbo Encarnado – o Alpha e o Omega de toda sabedoria, toda filosofia e toda teologia. Houve mais de mil anos de teologia cristã antes de Tomás, e mais de 700 anos de reflexão depois. Ele mesmo teria enfatizado a importância desse legado do passado e de uma postura profundamente aberta diante do futuro.

Eu sempre entendi a recomendação papal de Tomás como motivado – pelo menos da parte do Espírito Santo – por esta abertura do pensamento dele (quando lido não-idiologicamente). Josef Pieper, um dos melhores guias à leitura de Tomás, salientou o Fragmentcharakter (propriedade de ser só um fragmento) da famosamente inacabada Summa Theologiae, e por implicação, de todas as obras de Tomás. Com isso Pieper quis apenas realçar que o pensamento mesmo de um gigante como Tomás é sempre imperfeito, incompleto e até capaz de erro. O fato que Tomás não conseguiu terminar sua obra prima é talvez uma advertência para nós de não encerrar, demasiado depressa, nossas investigações filosóficas e teológicas.

Agora uma afirmação inegável, mas que pode escandalizar alguns tomistas: Tomás não foi conservador. Na sua época ele se situou à beira das novidades intelectuais do dia. Sofreu também bastante pela sua corajosa defesa de Aristóteles, um pagão grego, e – para acrescentar insulto à lesão – comentado por muçulmanos. Tenho toda certeza quando afirmo o seguinte: se Tomás estivesse vivendo hoje, ele estaria à frente dos diálogos filosóficos e teológicos inter-religiosos, e estudando também, e intensamente, as ciências contemporâneas, tanto naturais quanto humanas. Ele estaria lendo e comentando os textos do Segundo Concílio Vaticano, refutando distorções na sua interpretação e atacando quem ataca um concílio ecumênico da Igreja. Este grande santo teria se recusado a virar o guru de qualquer seita de ultraconservadores, mas igualmente avesso a servir de capitão para movimentos progressistas. Ele teria ficado estacionado no pico daquela montanha que se situa, serenemente, entre os dois vales monótonos e enfadonhos da Direita e da Esquerda.

Tomás é formidável; os tomismos são plausíveis e imperfeitas tentativas de emular a largura e abertura deste mestre singular. Os auto-proclamados tomistas, porém, compõem uma turma mais equivocada – às vezes insuportáveis nas suas ‘certezas’, correndo o perigo de transformar filosofia e teologia em catequese. Sem dúvida, catequese tem seu lugar, mas não é na Academia. O único bom tomista seria uma pessoa profundamente humilde, aberto ao crescimento, compassivo com seus adversários (como foi Tomás em escala monumental), e ansioso para aprender a verdade na medida certa, no momento apropriado e acompanhado pelo calor de caridade.

São Tomás, reze por nós. E abra para nós os caminhos de sabedoria que nos levam longe de qualquer ideologia, seja da Esquerda, seja da Direita. Queremos crescer para frente, porque é lá onde o Deus da Verdade nos aguarda.

 

Outro post sobre Tomás:  https://3wisdoms.com/2017/02/25/porque-amo-tomas/

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