Sobre o meticuloso ritual do Ano Novo

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Até mesmo no Brasil, meu país adotado, onde uma massiva e endêmica impontualidade grassa por onde quer que se olhe, quase todas as almas estarão acordadas, segundos antes da meia-noite de 31 de dezembro, com os olhos colados num relógio. Escrupulosamente farão a contagem regressiva para o novo ano civil. O começo de celebrações religiosas, aulas de escola e compromissos de todo tipo são perdidos por margens de até uma hora (ou mais), mas o começo do novo ano secular é consagrado com uma pontualidade a toda prova. A diferença entre 23:59 de 31/12 e 00:01 de 01/01 é saudada como uma transfiguração mágica e arrebatadora, enquanto a diferença entre o Advento e o Natal sumiu quase totalmente; e a linha divisória entre a Quaresma e a Páscoa também praticamente se desvaneceu. A difusão virulenta das festividades do Carnaval tem alguma relação com a Quaresma, é verdade, mas a Quarta-Feira de Cinzas, com frequência, escorrega – assim como o resto do ano litúrgico – abaixo da longa sombra da Terça-Feira Gorda.

A razão para isso é simples. Quando a religião declina, a religiosidade permanece – apenas muda de endereço; quando não mais se acredita na transcendência, o mundo imanente torna-se o apoio vacilante do nosso culto e da nossa adoração. Esbanjamos com devoção fanática e pontualidade escrupulosa o simples e enfadonho instante da mudança de um 2020 para um 2021. Nem sequer cai no solstício (uma boa semana antes)!

E almejamos o ritual com tanta intensidade – quase como um vício – porque nos falta aquele marcador do tempo no dia 25 de dezembro, quando o Cristo Menino devia ter sido deitado na manjedoura pela primeira vez desde o Natal do ano passado (em vez de ter sido visto já com frequência, em cada shopping, desde outubro); nos falta o divisor de águas entre as músicas de esperança do Advento e as músicas de alegria do Natal. E três meses depois, para maioria das pessoas, vai faltar também aquele frio na espinha quando as luzes da igreja se apagam todas e a lumen Christi, em forma de uma única vela, seguida por uma multidão de chamas, entra no santuário para a explosão de luzes da Páscoa. Hoje faltam aqueles momentos transformadores que alimentam a alma e incutem drama e expectativa em nossa imaginação. Por isso, cobiçamos os substitutos seculares.

Quando os dias santos viram apenas dias de folga, nossos instintos religiosos viram órfãos e buscam alhures suas regras e rubricas. Hinos religiosos menos cantados? Que tal um “hino” nacional num evento esportivo, até com lágrimas nos olhos? Não se paga mais o dízimo? Mas vamos declarar, com assiduidade, nossos impostos de renda, curvando-nos antes da data mágica de 30 de abril. Esqueceu-se de como rezar? Tente alguns chavões do politicamente correto, e observe as cabeças inclinadas em reverência. Ou tente até a blasfêmia (que não passa de uma oração travestida—“Ô meu Deus!” “Pelo amor de Deus!”).

Entenda-me bem, não estou desencorajando as festividades de Ano Novo – pontualidade uma vez por ano é melhor do que nunca. A celebração do começo do ano solar é uma tradição antiga que merece respeito. Portanto, ergamos um brinde mesmo. E que tal uma resolução de Ano Novo de remarcar aquelas datas no calendário que vão balizar nossa passagem para eternidade muito mais do que o primeiro dia de janeiro? Ao contarmos os últimos segundos do ano civil, deveríamos nos lembrar – se só por um instante – que um dia estaremos contando nossos últimos segundos na Terra. O fim da nossa brevíssima estadia no mundo vai chegar com uma pontualidade mortal.

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