Et Verbum infans factum est (e o Verbo se fez infante)

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Quando olhamos nos olhos de um infante, vemos alguém que vê coisas que nós não vemos mais. Os globos oculares são límpidos, livre de auto-reflexão, olhando para fora e vendo o mundo como realmente é, sem as nuvens de disfarce e interpretação (mesmo quando olhando para você, algo meio inquietante). Estudos recentes na psicologia infantil tem confirmado aquilo que as grandes tradições do mundo sempre sabiam, a saber, que as crianças sabem de coisas que nós adultos, através dos tumultos da educação e adolescência, temos esquecido .

Quando chegarmos à vida adulta, descartamos aqueles olhares docinhos como sintomas da ingenuidade infantil que, mais cedo ou mais tarde, terá que enfrentar o mundo ‘real’.  Mas somos enganados. É verdade, Cristo não nos admoeste para ficar crianças, mas nos admoeste sim para virar como crianças; e é aquela inocência da criança que ele nos apresenta como meta espiritual. Mesmo assim – e é isso que muitas vezes esquecemos – virar como uma criança significa não apenas reganhar uma certa inocência emocional, mas inclui também o conhecimento de certas coisas que só crianças conhecem.  (Olhem de novo para o rosto da criança em cima.)

A Encarnação de Deus não é a obra de um ou outro dos avatares do hinduísmo. Aquelas ‘manifestações descidas’ fazem, na Índia, o que os anjos e profetas fazem na Bíblia: eles  ‘descem’ (o sentido original da palavra avatara), ensinam por um período, e depois voltam para onde vieram, como os anjos; ou falam as coisas profundas de Deus, como os profetas. Se um anjo assumisse a forma de um ser humano, será apenas o uso de um veículo temporário, a ser descartado em breve, uma vez que a missão for cumprida. Eles não são Deus, e não podem ser homens. Profetas já são homens, mas nunca viram Deus. De fato, a impossibilidade desse último é talvez a injunção profética mais enfática.

“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós.” Esta é, certamente, a reivindicação mais momentosa jamais feita a respeito do Logos. Para aqueles que acreditam nisso – e nada é mais essencial – é um fato tão objetivo, tão metafísico e severo, vai tornar-se em um enorme escândalo. Trata-se aqui de um Deus que não é – como a maioria dos ateus opinam e, infelizmente, também um grande número de fiéis – só o ‘maior ente’ no universo, mas sim, o Ser Transcendente Mesmo. E quanto ao homem, trata-se de uma natureza que carrega um abismo dentro de si que só um tal Ser pode encher.

Você não pode explicar a beleza da música só pela matemática, nem o olhar dessa criança (dê mais uma olhada) só pela sobrevivência dos mais aptos. O ser humano é um mistério, e sua alma é aberta – tanto intelectual quanto volicionalmente – ao infinito. Dentro daquela abertura parabólica do mistério humano a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade entrou com sua própria natureza, produzindo um evento no tempo que marcou para sempre o ano zero, fazendo do ‘Deus que é o Ser’ um ‘Filho do Homem’. Deus virou homem em uma natureza humana completa, com corpo e alma. E porque aquela natureza não existe – como existe a de Deus – em um único momento omnipresente, sua vida fica espalhada no espaço e desdobrada no tempo. E como todas as coisas no tempo e espaço, começa pequeno, como uma criança.

Nas décadas após a Ascensão de Cristo, os eventos colossais da Semana Santa e da Páscoa perderam um pouco da sua imediatez e do seu destaque. Os primeiros cristãos começaram a colocar o Mistério Pascal em um contexto mais detalhado. Eles começaram a explorar o backstory dos primeiros anos daquele homem que morreu e ressuscitou dos mortos. Maria tinha sido consultada e outras testemunhas do nascimento, infância e juventude de Jesus também deixaram suas recordações. Muito dessa tradição oral foi depositado nos Evangelhos.

Aos poucos a estória do nascimento de Cristo entrou em foco. Virou claro que a plenitude da divindade já residiu dentro da pequena criança deitada na manjedoura.  Circundado por pastores, supervisionado por anjos, em breve a ser visitado por misteriosos magos do Oriente e perseguido por um monarca assassino, a narrativa do Natal se tornou o amado relato doméstico conhecida por nós todos. Ela inspirou mesmo sua contrapartida secular da festa do solstício invernal do norte cada dezembro, com árvores do Natal e guirlandas de luzinhas natalinas. Mas nada preparou a imaginação religiosa do mundo para este último milagre divino: que ia emergir desta face doce de um pequeno infante o olhar do mesmo Deus que criou o cosmos e lançou o mundo em um novo contexto pela sua morte e ressurreição. Este pequeno rosto ia olhar para nós e para o próprio mundo que criou, perdendo nada do seu poder infinito como Deus e da sua desarmante delicadeza como Criança.

christ

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