St. Justin Martyr

O dia em que fui entrevistado por Mgr. Marcel Lefebvre

Foi no mês de abril de 1975. Eu, com 22 anos, tinha viajado para Suíça, acompanhado por meu estimado mentor, John Senior, para visitar o seminário renomeado de Écône. Esse foi a sede da famosa (e, na época, ainda canonicamente legítima) Sociedade de Sacerdotes de São Pio X. Apesar de Senior ter preconizado a versão do catolicismo “pré-conciliar” cultivado lá, ele ainda não tinha conhecido este famoso centro do tradicionalismo. Foi o ideal sacerdotal do SSPX que ele apresentou aos seus alunos católicos – muitos convertidos pela influência dele (como eu). No seu entender, pelo menos no que diz respeito à formação do clero diocesano, esse seria o único modelo viável para a sobrevivência da Igreja nos tempos vindouros.

Ainda sou profundamente grato a Senior por ter me introduzido ao Catolicismo (eu fui criado presbiteriano), mas devo dizer que tenho uma gratidão ainda maior por outra intervenção dele no início da minha formação – pois foi John Senior quem me resgatou de uma queda precipitada dentro de um tradicionalismo engessado, profundamente atraente na primeira abordagem, mas depois altamente problemático.

Eu em 1975

Quão gostoso ser jovem, e achar que se sabe quase tudo. Eu, pelo menos, era assim. Meu primeiro entusiasmo pela Igreja Católica entendeu ela como “uma resposta completa ao problema da vida” (como eu tinha lido, na época, em um catecismo). Em princípio, posso ainda assentir a essa avaliação, embora com mais sobriedade e certas ressalvas. Seja como for, naquela época resolvi seguir os passos de alguns estudantes de Senior que tinham descoberto o mosteiro beneditino de Fontgombault na França. Lá, o canto gregoriano e as formas litúrgicas antigas ainda foram mantidas. Assim, eu também viajei para Europa no fim do ano 1974. Minha intenção era de passar um período “clausurado” e ver se eu, porventura, tinha uma vocação monástica. Acabei ficando alguns meses no mosteiro (mais detalhes sobre este tempo aqui), mas descobri, previsivelmente, que eu não era talhado para a vida beneditina. Uma vez que a visão mais bucólica da vida religiosa, favorecida por John Senior, tendia a alimentar vocações contemplativas, não abriram-se muitas portas para alguém, como eu, com uma vocação mais acadêmica. Os dominicanos dos anos 70 ele considerou confusos e até perigosos, e também nos avisou para manter distância dos jesuítas. Senti-me à deriva.

Logo, resolvi dar uma olhada no seminário suíço. Visitei Écône duas vezes, primeiro em fevereiro de ’75. Cheguei acompanhado por uma maravilhosa família de Bruxelas que tinha me acolhido em Bélgica. A família foi ainda unificada por um tradicionalismo extremo, mas, em seguida, iria fragmentar-se pelo mesmo radicalismo. Apesar de tudo, um filho da família ainda pertence à SSPX. Tanto quanto sei, ele está feliz.

A minha segunda visita foi no abril do mesmo ano, dessa vez com John Senior. Passamos alguns dias lá e depois fomos para Fontgombault, onde ia começar minha estadia monástica (Senior voltou depois para os EUA). Além da ordem e limpeza imaculadas da casa no Écône, da liturgia impressionante e escrupulosamente celebrada segundo o missal de 1962, batinas onde quer que olhasse, e, claro, ótima comida franco-suíça – tudo deixando impressões indeléveis na minha jovem imaginação – foram outras coisas que me chamaram atenção. Eu fiquei muito mais arrebatado por dois encontros e papos durante a visita, e um terceiro papo, logo depois. Vou relatá-los em sequência:

1) Houve um diácono inglês que estudou no seminário; ele foi encarregado de me recepcionar e acompanhar (eu quis falar só francês, mas ele insistiu em falar nossa língua materna, e com seu charmante sotaque britânico, eu não protestei). No domingo à tarde ele me convidou, só a mim, para uma longa caminhada e conversa; subimos por horas um pequeno caminho sinuoso na montanha, e durante os três ou quatro horas do passeio, meu guia falava sem parar.

Ele foi alto, magro, de visual acético, evidentemente inteligente e altamente eloquente. Em uma exposição cativante, me relatou sobre numerosas aparições de Maria pelo mundo afora, sobre iminentes eventos apocalípticos preditos nelas, e – como corolário a essa lição em revisionismo histórico – sobre a necessidade de eu entrar o mais rápido possível neste seminário (por ser o único que vai poder salvar a igreja), etc. – tudo pontuado com citações frequentes da Suma teológica de Tomás de Aquino (com questão, artigo e subdivisões todas detalhadas). Fiquei siderado de admiração. Também recebi dele uma lista de livros sobre a crise na igreja (e na civilização), os quais eu teria que ler para entender a situação. Tenho os livros até hoje.

Fun fact: Esse diácono, poucos anos após sua ordenação sacerdotal, foi um dos quatro bispos ilegalmente consecrados por Mgr. Lefebvre, algo que provocou o grande cismo da SSPX com a Igreja no final dos anos 80. E como se isso não bastasse, o novo bispo inglês acabou adentrando um segundo cisma contra a própria SSPX. Até hoje, agora avançado na idade, continua viajando sozinho, visitando pequenos grupos de tradicionalistas convictos do seu papel singular e apocalíptico.

2) O segundo evento marcante foi minha entrevista com Msgr. Lefebvre. Ele ficou sabendo da minha visita e meu interesse no seminário; logo, liberou uma hora na sua agenda lotada na qual poderíamos papear. Agora eu pude usar meu francês (o bispo não falava inglês). Conversamos quase uma hora, contei minha história e, após a conclusão da entrevista, me entregou ao padre americano no seminário que cuidou dos poucos candidatos anglófonos. Com ele, combinamos a minha volta para Écône depois dos meses que já tinha planejado em Fontgombault. A porta estava aberta.

Achei Mgr. Lefebvre cordial e bem menos fogoso do que o diácono inglês. Mas gostei dos dois. Enfim, fiquei muito feliz que eu tinha sido bem acolhido e até convidado a voltar e talvez entrar no seminário. Senior passou os dois dias conversando com outros seminaristas, dando-lhes até uma palestra (em inglês) sobre literatura. Da minha parte, eu estava muito ansioso para falar com ele sobre o seminário e meus novos planos. Porém, teríamos tempo para falarmos entre nós só depois da nossa partida, na viagem para França.

3) Quando, finalmente, fomos depositados na estação ferroviária de Sion (a cidade ao lado de Écône), o professor e eu achamos nossos assentos no trem e começamos a falar sobre a nossa experiência. Eu não pude conter minha empolgação. Exclamei que, finalmente, tínhamos achado o paraíso católico que buscamos para a formação de sacerdotes. A ele relatei tudo sobre minha entrevista com o bispo e o convite que eu tinha recebido. No entanto, notei no rosto de Senior uma ambiguidade que não esperei. Não querendo extinguir totalmente meu entusiasmo juvenil, ele só abanou a cabeça ligeiramente e falou: “Não sei….”

Embora o cisma dessa comunidade com a Igreja só aconteceria vários anos depois, Senior já percebeu, durante nossos dias em Ecône, uma tendência que o preocupou, e bastante. Mas nada me preparou para o que ele ia falar depois sobre o bom bispo Lefebvre; fiquei boquiaberto. Abanando a cabeça de novo, afirmou: “O que ele esta fazendo é protestante.” Eu sou longe de demonizar tudo que for protestante, mas dizer isso sobre uma empreitada, como aquela de Marcel Lefebvre, que se gabou de ser 200% Católico me deixou sem palavras. Pouco depois veio o veredito: meu querido professor me aconselhou a não voltar para Écône. E, embora profundamente desapontado e um pouco perplexo, segui seu conselho e nunca voltei. Enquanto me lembro, acho que não falamos muito mais durante os 5-6 horas de viagem para França.

Tem um paradoxo em tudo isso. Desde então, eu fui seguindo outros caminhos ao sacerdócio e continuei me afastando da ideologia tradicionalista, até hoje. Agora entendo bem o sutil perigo “protestante” que ele tinha detectado abaixo da fachada do tradicionalismo. Virei grande fã do Papa São João Paulo II (não sem ressalvas aqui e lá, claro) – enfim, foi esse  papa que me ordenou em 1983 – mas Senior não escondeu sua aversão a esse pontífice. Com o passar dos anos, ele se recuou cada vez mais dentro do mesmo tradicionalismo de que ele tinha me resgatado em 1975. Apesar disso, mantivemos contato amigável até sua morte em 1999 (correspondamos muito, mas mais sobre assuntos teológicos e não eclesiásticos).

Durante os anos subsequentes, ele me falou mais duas coisas (entre tantas outras) que me parecem relevantes a esse surpreendente desfecho da sua vida católica. Uma vez, após uma conferência que deu a um grupo de fiéis, ouvi ele exclamando (privadamente): “Que Deus me livre dos conservadores católicos!” Um certo farisaísmo, não raramente observado entre ultra-conservadores e tradicionalistas (mas totalmente alheio à alma de Senior), pesava bastante sobre ele. Outra vez ele tentou me explicar o motivo pela sua frequência, nos últimos anos da sua vida, de uma fundação americana da SSPX. Justificou-se dizendo que era velho e doente (tinha problemas sérios com o coração nos anos 80 e câncer nos anos 90) e se entendeu dispensado da proibição de assistir a igrejas cismáticas; as missas “novas” o deixou agitado, ameaçando até sua saúde. Eu entendi (embora não podendo desculpar).

E quando lhe dei minha bênção sacerdotal pela última vez numa visita só meses antes da sua morte, agradecei a Deus pelo privilégio de ter sido aluno, e depois amigo desse mestre. Apesar do fosso que se estendeu entre nós no entendimento do Concílio Vaticano II e dos papas pós-conciliares, agradecei a Providência Divina que chamou ele a me dar, no momento certo, um conselho que iria orientar minha vocação na direção certa por quase 50 anos.

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