St. Justin Martyr

Sobre mudanças (e o permanente)

Uma chama é uma coisa. É por isso que damos a ela um nome e podemos apontar para ela. Podemos dizer o mesmo de um rio. Porém, o que essas duas coisas na verdade representam são duas espécies de mudança incorporada. Se a chama deixasse de cintilar, ou o rio de fluir, parariam de existir. Não ficaria nada para o qual poderíamos apontar, nem batizar com um nome. Mas esses movimentos encarnados, em virtude da sua constância fluida e sua misteriosa mesmice na mudança, positivamente convidam nossa linguagem a rotulá-los e nossos dedos a indicá-los.

Nossos corpos também são coisas. Todavia, a complexidade e intensidade das mudanças que ocorrem cada momento nas profundezes das suas trilhões de células é alucinante. Antes de todos os demais movimentos que fazemos durante um dia – caminhando, falando, gesticulando, comendo e nos preocupando – nosso metabolismo é, não menos que os saltos da chama ou as correntes do rio, a dinâmica incessante que está subjacente ao nosso ser constante. É assim porque somos vivos: viver é mudar-se. Porém, mudança não significa chaos. Atrás da cortina cósmica, Heráclito e Parmenides estão, clandestinamente, de mãos dadas.

Mesmo quando apontamos coisas cujos movimentos ficam menos óbvios, como montanhas e o firmamento de estrelas “fixas”, os geólogos e astrônomos nos informam que essas coisas também fluem. Quando passam alguns milhões de anos, os astros vão se gastar como velas usadas, e as montanhas se reduzirão em pó.

E quanto às ideais? Será que Platão não conseguiu nos convencer? Ele nos ensinou a o último objeto das nossas ponderações intelectuais são Formas, ou Ideais, permanentemente arraigadas numa realidade transcendente e imune a todos os processos e evoluções do mundo material. Não é o caso que triangularidade terá sempre três lados, vermelhidão será sempre a cor que conhecemos e amamos, e justiça a vontade permanente de dar a cada um o que é seu? O fluxo cósmico não aponta, claramente, a uma imutabilidade eterna e transcendente?

Agora devemos pensar com cuidado. Estabilidade soa maravilhosa, mas petrificação menos. Mesmo a versão cristã da nossa última beatitude como a visão face-a-face de um Deus eterno e imutável viria um pesadelo se envolveria um congelamento da nossa mente num olhar fixo perante uma estátua divina inerte. Na Comedia de Dante, quem fica congelado em imobilidade não é o santo no Paraíso, e sim Satanás no Inferno. A paralisia jaz no fundo frio da condenação, e não nas regiões luminosas e calorosas da felicidade celeste. Enquanto Dante ascende pelo Purgatório para cima no Paraíso, o indício da sua ascensão é um aumento na mobilidade e abertura, seu desdobramento a mais e mais liberdade, uma reconquista daquele “bem do intelecto” perdido (il ben dello intelletto, Inf. III,16). Ser “estabelecido” na graça não é equivalente a ser amarrado, mas antes a ser desalgemado e colocado no caminho certo para andar e avançar. Assim, e só assim podemos progredir para frente e emancipar, progressivamente, todos nossos poderes.

Ideais, como organismos, são vivas. Elas não se movem, biologicamente, por metabolismo, ou fisicamente, por trocas de massa e energia, mas elas têm sim “movimentos”. A palavra correta para essa atuação, porém, seria atividades, porque mentes e vontades atuam sem movimento material. As ideias que temos, os juízos que pronunciamos, as escolhas que fazemos e cada outro ato intelectual ou volitivo que realizamos, são todos realidades vivas. São tão vivas – na verdade, mais vivas! – do que as transformações constantes nas fábricas das nossas células, ou os esforços que fazemos com músculos e ossos do nosso corpo. Ideias são até bem mais interativas do que reações químicas ou mesmo nucleares.

Teologicamente falando, toda ideia verdadeira (como todas as verdades de qualquer tipo que seja, obtidas intuitiva ou inferencialmente) jazem permanentemente seguradas dentro da riqueza do Logos, que é a secunda hipóstase da Santa Trindade. Aquele Logos, sendo Deus mesmo, nunca muda; contudo, viva com um dinamismo e uma multiplicidade de possibilidades muito para lá do conhecimento humano. Conseguimos uma avaliação minúscula e aproximativa daquela cornucópia da verdade apenas quando movemos nossa mente de um aspecto ao outro, de uma perspectiva à outra, de um ponto de entrada ao outro. Alguns dos primeiros pensadores das tradições judia e cristã (de Filão a Orígenes) vão “localizar” o mundo das Ideias Platônicas dentro do mesmo Logos do Pai Eterno, ou seja, no Filho. Segundo a convicção cristã, é essa Secunda Pessoa que virou homem em Cristo – aquele que não só falou palavras de sabedoria, mas que é a última Palavra de Sabedoria, comunicada em uma natureza humana e vivenciada numa história concreta.

Consequentemente, a unidade e durabilidade das ideias verdadeiras ficam arraigadas em uma realidade duradoura mesmo. Mas a verdade vive. A atividade incessante da contemplação da verdade – levada ao enésimo grau se o objeto da contemplação for o Deus vivo e infinito – não abandona seus fundamentos, mas se posiciona acima deles para avistar novas conexões, novas implicações, novas consequências e novas ideias-irmãs. É isso que Newman chamou de desenvolvimento da doutrina. Em coisas vivas, mudança é coreografada para ficar em estrito compasso com as exigências de uma natureza estável. O que acontece às ideias no tempo é simplesmente que elas crescem, amadurecem e se desdobram. Suas facetas, como aquelas de um diamante, enquanto giram perante contextos e perspectivas novas, faíscam em direções diferentes e, não raramente, surpreendentes. O que uma ideia pressupõe, o que se segue de uma ideia, a quais outras ideias ela se relaciona (implícita e explicitamente) – todas essas dimensões se revelam ao longo do tempo. Mas as ideias se desenvolvem não por cessarem de ser o que são, mas por desvendar um mundo de relações só vislumbradas quando foram lançadas, pela primeira vez, na mente humana.

Apesar da sua fidelidade a uma fonte original, cada ideia não é apenas conservadora, porque não há nada que ela conserva melhor do que o dinamismo de adaptação à Verdade na sua totalidade. Quando Cristo falou, “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jn. 14,6), ele quis que saibamos que sempre haverá crescimento e descoberta (caminho) em nossa aproximação a Deus, e não se trata só de fórmulas bem definidas e argumentos ganhados, por mais importantes que sejam. Ele quis nos lembrar que a verdade vive, e que o que vive cresce, e que o que cresce evidencia aquilo que é marca registrada de toda vida: fecundidade (Was ist fruchtbar, das allein ist wahr*, Goethe). Finalmente, ele quis revelar que a Verdade, na última hipótese, é pessoal, e que é apenas na sua Pessoa como Logos do Pai no Espírito Santo, que achamos o último lar das ideais, o manancial vibrante de todas as doutrinas e a consumação e conclusão de todo discurso. Cada ideia, cada verdade e cada conhecimento sussurra, brandamente: “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”.

 

* Só aquilo que é fecundo é verdadeiro.

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