St. Justin Martyr

Deixando Tróia (2021)

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A ponta noroeste da ‘Ásia Menor’ (hoje Turquia) representava para o mundo antigo a extremidade mais a Oeste do enorme e populoso continente asiático. Ele se estende até o Japão, ao norte, e até a Nova Guiné, ao sul. Mesopotâmia, Pérsia, Índia e China todas se situam lá, com o peso de seus milênios de história e cultura. E, naquela ponta intrusiva, encontramos a cidade de Tróia.

Esta cidade agora já é um fato histórico, depois que a arqueologia desenterrou múltiplas camadas de uma metrópole complexa, e de uma antiguidade quase pré-histórica. Daquela cidade oriental de Tróia, três viagens teriam início e deixariam sua marca naquilo que posteriormente seria conhecido como Europa. Até mesmo o nome do continente novato remonta sua história até o Oriente: a princesa fenícia ‘Europa’ foi supostamente raptada pelo rei dos deuses e levada às costas da Grécia. Isto, claro, é um mito, o que, nas palavras de Coomaraswamy, é uma ‘verdade penúltima’. As três viagens, contudo, foram mais do que mitos, especialmente a terceira.

Nossos antepassados gregos desde sempre interagiam com o Oriente. A sua primeira grande obra histórica (As Guerras Persas de Heródoto) e sua primeira obra prima de drama (Os Persas, de Ésquilo) tratavam dos habitantes da região que hoje chamamos de Irã. A história mundial nos pareceria muito diferente se os gregos não tivessem triunfado – contra todas as chances – contra o Império Persa. Mas a conexão com Tróia é ainda mais profunda do que isso.

Em primeiro lugar, a guerra de Tróia ocorreu séculos antes da guerra contra os persas. Nesta, os gregos venceram, porém não conquistaram. Foi para eles uma guerra bem sucedida sim, mas apenas de auto-defesa. Na outra guerra, tanto os vencedores quanto os perdedores lançaram viagens criadoras de história e mito. Tróia assombra a imaginação ocidental não como um mero inimigo derrotado, mas como palco de uma altercação icônica que moldaria a narrativa emergente da Europa dos dois lados da disputa.

A Odisseia

Do lado vencedor, Odisseu deixa Tróia e empreende a sua fabulosa e prolongada viagem de casa para seu país peninsular. Isso gerou uma estória que logo seria cantada em verso – cortesia do bardo cego Homero. O país começaria logo a falar não apenas em sublimes versos épicos, líricos e dramáticos, mas também num idioma inaudito até então aos ouvidos ocidentais: a prosa filosófica. Uma nova onda de naturalismo na escultura emergiria igualmente daquela cultura, artisticamente fascinada pelas curvas naturais do corpo, assim como a nova filosofia seria cativada pelas linhas lógicas da filosofia. Durante esse tempo, a luta de seus heróis do passado distante – naquelas praias asiáticas – serviria como uma reminiscência épica definidora. Gerações de garotos gregos iriam memorizar a Odisséia e a Ilíada.

A Eneida

Do lado perdedor da mesma guerra, outra história foi contada, e com uma trama tanto momentosa quanto foi a dos vencedores. Enéias também deixou Tróia, mas não estava voltando para os braços da sua esposa, e sim fugindo de sua cidade natal que estava queimando até o chão. Odisseu enfrentou obstáculos em seu caminho para casa, mas chegou em casa mesmo assim.

Enéias começou igualmente com obstáculos, e eles continuavam durante sua busca por um novo domicílio. Ao final da jornada, ele encontrou seu novo lar nas costas ocidentais da Itália. E um dia, o nome de Roma iria ressoar por todo o globo. Portanto, as duas principais fontes da civilização européia – a Grécia, com sua filosofia e arte, e Roma, com suas leis e arquitetura – remetem à saga fundadora sobre aquela antiga guerra nas costas da Ásia. E, ainda que Roma estivesse fadada a conquistar a Grécia militarmente (e, de certa forma, vingar a derrota de seus antepassados em Tróia), Roma seria por fim conquistada culturalmente pela Grécia, vencida pelo amor grego à beleza e à sabedoria.

A Eneida, do poeta latino Virgílio, já está bem distante das duas epopéias homéricas, tanto em estilo quanto no tom. É comparável apenas em escopo e ambição. Mas o texto que recontaria a terceira viagem de Tróia é tão diferente dessas obras épicas (e, na verdade, diferente de toda a literatura anterior, em qualquer gênero), que permanece sozinho no mundo da palavra escrita.

O Novo Testamento

No Novo Testamento, aconteceu um episódio das viagens missionárias de Paulo que o levaram à mesma ponta da Ásia que abrigava as ruínas de Tróia. Lá ele tem o famoso sonho de um macedônio do outro lado do Mar Egeu, que lhe pede para passar à outra costa (Atos 16,9). Com frequência na história religiosa, a ‘outra orla’ simboliza um momento decisivo na história espiritual de uma pessoa – no Hinduísmo e no Budismo como símbolo do mosksha ou nirvana, no Jainismo, a conquista transcendente anunciada pelos tirthankaras (literalmente, “construtores de vau”).

No caso de Paulo, é ele mesmo que leva a libertação e a iluminação à outra orla. É ele que vai vadear o corpo de água que separa a Ásia daquilo que, mais tarde, será a Europa. E, ao fervor helênico pela estética e dialética, e à sóbria jurisprudência romana e sua imponente arquitetura, um novo ingrediente foi injetado na composição inédita que chamamos Europa – tudo isso porque Paulo decidiu seguir um sonho.

Séculos depois, os celtas, os germânicos e os eslavos do norte herdariam os frutos daquela promíscua mistura mediterrânea, e a Europa que conhecemos desde a Idade Média começaria a se erguer como uma catedral gótica. Mas, a partir do momento em que os três maiores componentes – oriundos de Jerusalém, Atenas e Roma – começaram a interagir quase alquimicamente, algo novo na história começou a se formar. O mundo nunca mais seria o mesmo. As travessias marítimas de Odisseu e de Enéias foram longas e sinuosas, mas a de Paulo foi rápida e direta. Mesmo assim, todas essas viagens começaram em Tróia, e todas essas viagens levaram – direta ou indiretamente – ao lugar onde você está lendo isto agora. Somos todos troianos.

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