A Páscoa empírica 2021

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Uma concepção comum sobre o Cristianismo dirá que ele consiste em crer cegamente em uma série de verdades abstratas com respeito a um Deus que é um e três, uma pessoa que é Deus e homem, e um pão que não é pão. No entanto, o lado mais abstruso desses artigos de fé – e artigos de fé são! – seria elaborado tão somente nos séculos após as primeiras pregações dos Apóstolos. Sem dúvida, de forma implícita estavam sempre presentes. Fazem parte integrante de um todo orgânico. Não obstante, vieram explicitamente à tona no decurso do crescimento desse todo, assim como flores e frutos surgem mais tarde na vida de uma árvore recém-germinada. As raízes e o tronco vêm primeiro.

As raízes, nesse caso, foram entendidas pelos primeiros seguidores de Cristo não como ensinamentos rarefeitos, mas como consequências de um fato. O Cristianismo se sustenta, ou desmorona, sobre a verdade de um fato empírico. Todas as elaborações da teologia e do magistério dos concílios e dos papas surgiram subsequentemente a esse fato, cresceram em cima desse fato e apontaram insistentemente para esse fato. Sem ele, os ensinamentos teriam se tornado diáfanos sopros de ar. “Se Cristo não ressuscitou,” afirmou São Paulo sem rodeios, “logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé.” (1 Cor., 15,14)  Mas, o que isso quer dizer exatamente?

O Mistério Pascal da Morte e Ressurreição de Cristo foi entendido, desde o início, como um mistério factual. Cristãos acreditam que Cristo realmente morreu (apesar da ideia de alguns muçulmanos que a morte foi fingida), e que depois ele realmente ressuscitou dos mortos (apesar das interpretações “espirituais” de alguns modernistas). A negação de qualquer um desses fatos esvazia o sentido mesmo da Páscoa. Acaba reduzindo as duas realidades mais concretas e historicamente enraizadas de todos os tempos a meros símbolos pálidos de verdades sobre um outro mundo. Não que um outro mundo não esteja envolvido. Mas o Mistério Pascal é uma verdade sobre este mundo e como ele foi mudado para sempre quando aquele outro mundo irrompeu nele.

Vejamos: imagine uma pessoa que você conhecia e amava, mas que – como todos nós mais cedo ou tarde – morreu. Primeiro: imagine-a quando viva e vibrante, com sangue nas bochechas e um brilho nos olhos. Ora, imagine ela imóvel e pálida em seu caixão. Até aqui é a história bem conhecida. Mas agora, imagine a mesma pessoa, poucos dias depois do funeral e no meio de seu luto quase insuportável, entrando pela porta da frente de sua casa, se aproximando de você e dando um beijo no rosto.

Tão logo você tivesse superado a dúvida inicial – talvez andando em volta dela algumas vezes, beliscando seu corpo e checando a sua respiração – dificilmente você estaria inclinado a proferir abstrações ou ruminar sobre princípios metafísicos. Ao contrário, você sentiria que algo havia acabado de mudar para sempre em sua vida. E você começaria a contar a todo mundo sobre isso. O bicho-papão mais temido de todos – a morte – teria acabado de sofrer um dramático revés. Todo um universo de significados, outrora fixos e fadados, teria sido virado de ponta-cabeça.

Essa foi a primeira experiência do conteúdo do testemunho cristão – um testemunho da morte e ressurreição de um homem conhecido e amado por uma multidão de pessoas comuns. Essa morte ignominiosa e inegável – um óbito tão definitivo quanto o de uma mosca esmagada sob a sola do seu sapato – fora testemunhada e lamentada por uma turba de espectadores. Mas numa viragem dos acontecimentos inédita na história, esta morte foi revertida e transcendida diante dos seus olhos.

O que foi testemunhada aqui foi a intrusão – neste, nosso querido mundo, marcado pela morte inevitável – de uma Vida pujante e transbordante, uma reviravolta total da reinante lógica da mortalidade. E a novidade – a mesma que deu seu nome ao Novo Testamento – foi no fato de que isso não se apresentou apenas como uma renovação “espiritual,” ou seja, a libertação de um “espírito” da prisão do mundo da matéria. Pelo contrário, aqui houve uma “reinicialização” corporal: moléculas e células postas numa nova ordem do ser. Nada parecido tinha ocorrido desde o primeiro Fiat lux de Gênesis.

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Milhões preferiram a tortura e até a própria morte em vez de negar esse testemunho. O brilhante e cerebral Saulo de Tarso era talvez o maior intelectual da sua época; em termos atuais, ele teria o equivalente a doutorados em Filosofia, Teologia e Exegêse. Mas o Saulo de Tarso virou São Paulo do Evangelho apenas quando algo lhe aconteceu que nenhuma escola acadêmica podia prever. O encontro com Cristo Ressuscitado o levou de roldão, e nunca mais o superou. O manancial para o aprofundamento de todos os mistérios teológicos – dogmáticos, morais, acéticos e místicos – a serem definidos em séculos vindouros, é nada mais do que esta atitude fundamental de São Paulo: deslumbramento permanente sobre o fato empírico da Páscoa.

 

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