O que 'católico' também deve significar

καθ’ ὅλου

– eis aqui, em sua forma original, embelezada naquelas adoráveis letras gregas (romanizada, seria kath’olou, algo como ‘de modo geral’, ou ‘de acordo com o todo’), inspiradora da expressão latina que nos legou a palavra em Português: ‘universal’ (adicionando sua própria virada etimológica, sugerindo um ‘giro’ – vertere – ‘para o uno’ – uni). Embora apropriada pela tradição Católica Romana como o seu título especial, desde o seu começo, a igreja cristã considerou-se ‘universal’, porquanto tem sido portadora de uma mensagem para todos. Aqui, não havia qualquer religião étnica ou crença tribal, muito menos um clube esotérico para uns poucos privilegiados; ao invés disso, havia uma Rede de Notícias global – ao mesmo tempo muito velha e muito nova –, destinada ao gênero humano como tal (passado, presente e futuro).

O observador Protestante – e, em alguma medida, o Ortodoxo – podem achar que a ‘usurpação’ Católica Romana do termo mal disfarça certa ambição imperialista, que pretende sujeitar todos os crentes e impor sua própria versão da fé a todos os que desejam aderir a “toda a verdade e nada além dela.” Sem lidar com as inevitáveis controvérsias geradas pelas teses divergentes dos magistérios cristãos rivais, eu apenas sugiro que seria oportuno àqueles que se auto-intitulam Católicos (letra maiúscula) considerarem outra dimensão de sua aspiração de também serem ‘católicos’ (letra minúscula).

Com catecismos e sumas e (em casos estritamente definidos) papas infalíveis, a Igreja Católica poderia dar a impressão que entende sua universalidade apenas no sentido de que inclui toda a verdade sob o seu âmbito, sem exceção. Não discutirei – apresso-me em dizer – que o credo e o catecismo de fato possuem uma completude em si, no sentido de estabelecerem uma narrativa básica e definem as verdades radicais. Também traçam fronteiras dentro das quais a plenitude da Verdade pode finalmente se abrir, como a cauda de um pavão, e brilhar. Em que medida, contudo, essa Verdade brilha plena e finalmente, isso é outro assunto.

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Os Evangelhos nos dizem categoricamente que o Espírito de Deus irá nos encaminhar, um dia, a toda a verdade – tempo futuro (Jo 16,13). São John Henry Newman tornou explícito aquilo que já era presente na revelação cristã, mas nem sempre notado, a saber: que existe de fato um desenvolvimento na doutrina cristã, sendo ela uma coisa viva que amadurece e cresce com o tempo; suas flores e frutos aparecerão num tempo futuro, em que ninguém que tenha visto apenas suas raízes e tronco, suspeitará.

Portanto, aí vai minha modesta sugestão: hoje, como nunca antes, seria saudável que os católicos enfatizassem não tanto de possuírem toda a verdade salvífica na sua crença, mas uma afirmação bem mais profunda e ousada: de estarem abertos a toda verdade. Claro, esta última afirmação depende, num sentido importante, da primeira, mas parece que nós perdemos de vista o fato de a primeira ser uma ameaça à própria completude que ela alega, caso não abra suas portas e janelas à segunda.

Não é apenas uma apologética astuta dizer que o Logos, tornando-se homem em Cristo, é o mesmíssimo sobre quem os filósofos perguntavam desde que as indagações humanas começaram. E não é sem razão que o primeiro grande filósofo cristão, São Justino, o Mártir (2º século), insistia em continuar usando sua capa de filósofo após sua conversão. E experimente redimensionar as seguintes declarações do Novo Testamento para adequá-las a uma simples sábio antigo que apenas queria que fôssemos legais uns com os outros, tais como:

“Ele é a imagem de Deus invisível, o Primogênito de toda a criação. Nele foram criadas todas as coisas, nos céus e na terra, as criaturas visíveis e as invisíveis… Ele existe antes de todas as coisas e todas as coisas subsistem nele.” (Col. 1, 15-17); ou “O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos olhos, o que temos contemplado e as nossas mãos têm apalpado no tocante ao Verbo da vida – porque a vida se manifestou e nós a temos visto; damos testemunho…” (1 Jo. 1, 1-2); ou “Ele é o splendor da glória de Deus e imagem do seu ser, e sustenta o universo com o poder da sua palavra.” (Heb. 1,3). Esses versículos não são facilmente descartáveis.

E São João Evangelista sabia perfeitamente em que léxico filosófico antigo ele mergulhava quando disse: “No princípio era o Verbo (o Logos), e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus…” (Jo. 1, 1). Foi esse Verbo que virou carne em Cristo. O velho Heráclito aguçaria seus ouvidos, e a definição aristotélica do homem como zoon logikon (animal baseado no Logos) se encontraria banhada num novo significado. E o próprio Jesus Cristo preferia medir suas palavras no interesse de uma pedagogia gradual,  toda a sua vinda sendo, afinal de contas, uma espécie de ‘amortecedor’ entre a nossa obtusidade e seus poder e glória absolutos, cortesia da Carne e Sangue da Virgem. Todavia, uma vez ele fez levantar as sobrancelhas dos seus ouvintes quando as seguintes palvras emergiram de seus lábios, outrora tão cuidadosos: “Antes que Abraão fosse, eu sou” (Jo 8,58).

O ‘ouro egípcio’ já abundantemente minerado dos próprios egípcios, dos gregos e romanos, e dos povos do norte da Europa, construiu uma civilização cristã inédita na história humana. Enquanto ela se desvanece agora na Europa, um desafio ainda não totalmente vencido ficará. Entrar com uma mente cristã em outras culturas mundiais – especialmente na Índia e na China – de forma que novos raios de luz começam a brilhar no Evangelho, chamando a atenção para certos tópicos e contextos até então ignorados, ainda convida novas abordagens. Mas, também – pelo menos em igual medida – veremos uma surpreendente luz partindo do Evangelho e brilhando sobre o mundo dos Vedas, dos Upanixades, dos sutras budistas, dos clássicos taoístas e confucionistas, e sobre todas as outras configurações do Bem, do Verdadeiro e do Belo. Tudo já  esboçado alhures, mais ainda apenas sussurradas (ou esquecidas) em suas formulações explícitas.

O discernimento dos espíritos, é claro, continuará a ser a ordem do dia, como sempre tem sido na própria tradição cristã. E ainda que o Senhor nos mande não arrancar o joio, a menos que tiremos os bons grãos também, ele não nos proíbe de identificar esses grãos, por onde quer que eles cresçam.

Eu espero o dia em que ser ‘Católico’ significará necessariamente ser ‘católico’: ou seja, ser aquele que apresentará um espelho para todas as tradições, no qual toda verdade pode encontrar sua melhor estação; todo o bem, seus nortes definitivos; e toda a beleza, a sua consumação inequívoca – lá onde todo ser humano de boa vontade e mente honesta poderá testemunhar a universalidade da revelação. Seu único foco e suprema realização em Cristo não seria mais só concorrência e triunfalismo, mas cumprimento e regresso ao lar. Lá acharemos um espelho que olha para a eternidade sem distorção, n’Aquele que disse: “ ‘das trevas brilhe a luz’ — aquele que fez brilhar a sua luz em nossos corações, para que irradiássemos o conhecimento do esplendor de Deus, que se reflete na face de Cristo” (2 Cor 4,6).

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