St. Justin Martyr

Duas lágrimas

 

Nossas vidas emocionais parecem simples. Choramos, rimos. Toda criança faz isso. Presumimos que sofisticação, paradoxo e mistério sejam reservados para as atividades mais adultas da razão e reflexão. Quando procuramos as dimensões mais profundas do mundo, e as mais furtivas das nossas próprias vidas, nos voltamos para os provedores de sistema e argumento. Deixamos as choronas na creche. Mas estamos enganados.

A experiência mais simples, provindo dos nossos corpos e até nossos fluidos, já levam as marcas do mais profundo enigma da existência humana. Refiro-me às nossas lágrimas. Que choramos na presença de grande dor ou profunda tristeza parece uma reação “lógica,” provocada de dentro das nossas complexidades evolucionárias. Dá-nos um tipo de descarga, como comer quando com fome, beber quando com sede, ou se deitar quando cansado.

Mas o que significa o fato de chorarmos quando profundamente felizes, ou quando abençoados com alegrias transcendentes? Porque é que tais circunstâncias não afastam as lágrimas como descabidas, ou até como desmancha-prazeres? No entanto, elas não fogem – quando muito, correm ainda mais. Não há diferença química entre os dois rios salgados que escorrem, de tempos em tempos, pelo rosto: 1) quando aprendemos que um ente querido tenha morrido, e  2) quando encontramos outo ente querido, ainda vivo, mas que não temos visto por anos. De um lado, lágrimas de alegria; do outro, lágrimas de tristeza – signos opostos, mas brotando dos mesmos mananciais. Elas vêm do fundo de corações que acabaram de captar um sentido, um segredo; já sabiam que esteja ali, mas ainda não conseguem verbalizar.

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