Festa da Família Inquieta

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Cada vez que celebramos a Festa da Sagrada Família, lembro-me de minha viagem ao Egito, há tantos anos, e das visitas a alguns dos vários lugares dedicados pelos cristãos coptas àquela Família. A fuga para o Egito (mencionada apenas por São Mateus) recebe alguma atenção da arte cristã, e é até contada como uma das Dores de Maria na tradição católica. Mesmo assim, é bastante negligenciada pela igreja ocidental – ao menos quando se a compara com a importância que, previsivelmente, teve no Egito. Não menos de 14 lugares egípcios comemoram aquela visita com capelas e igrejas. Elas marcam os locais de pouso ou as residências temporárias da Sagrada Família, enquanto seguiu os passos daquele outro José que entrou no Egito (igualmente constrangido, contra sua vontade), mil e quinhentos anos antes. No devido tempo, esta Família seguiria também os passos de Moisés fora do Egito. Porém, neste caso, em vez de buscar a Terra Prometida lá além do Mar Vermelho, ela levaria a promessa consigo, no Menino Jesus.

A doce paz da cena da manjedoura pode nos pôr a dormir num conforto decepcionante. Todos nós amamos estar “em casa no Natal,” mas a ocasião do nosso feriado é a comemoração de um desabrigo dos mais cruéis. O estábulo sujo e os animais fedentes são circundados com luzinhas de Natal em nosso presépios, no que foi apenas um abrigo temporário para esses três fugitivos. É muito fácil esquecermos a agitação que se seguiu à inesperada gravidez de Maria, e o massacre dos inocentes provocado pelos três astrólogos orientais, que apenas perguntavam sobre o paradeiro de Belém. Os anos da Sagrada Família no Egito – os coptas contam sete – assim como os quatro séculos da longa estadia de seus ancestrais, devem ter sido mais formativos do que se imagina.

Jesus teria começado a falar nas terras do Nilo, e algumas das primeiras vistas captadas pelos seus olhos jovens teriam sido pirâmides e templos faraônicos. Quando a segurança permita, os turistas de hoje amam fazer um tour dos monumentos exóticos do Egito e maravilhar sobre essa cultura que gerou toda uma ciência (egiptologia). Contudo, para Maria e José, devia ter sido mais assustador do que fascinante. Quais pensamentos deviam ter passado pela mente do Menino Jesus quando sua memoria inocente ficou armazenada com essas imagens da terra misteriosa dos faraós. Mas de alguma forma faz sentido. Como os judeus se tornaram um povo no Egito, e o Velho Testamento se tornou um livro na Babilônia, aqui também parece que, muitas vezes, Deus faz o seu “melhor trabalho” quando seus escolhidos se acham no exílio.

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