St. Justin Martyr

A noite silenciosa da fecundidade

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A Páscoa é dramática, e a narrativa que se estende do Domingo de Ramos à Ascensão é mais carregada de reviravoltas, altos e baixos do que qualquer coisa que Ésquilo ou mesmo Shakespeare poderia ter imaginado. E nela há ruídos, desde a saudação da entrada de Cristo em Jerusalém às zombarias de sua crucificação, até o tremor da terra na Ressurreição. Em Pentecostes, também, ouvimos que “um som veio do céu,” e logo múltiplas línguas enchiam o ar com proclamações da mensagem que mudaria o mundo para sempre. Quando chegamos ao Natal, contudo, há silêncio.

Muito antes do inquietante drama e da glória da Páscoa, e das responsabilidades de pregação de Pentecostes, topamos com uma atmosfera silenciosa ao redor da manjedoura em Belém. E, não obstante, estamos diante de algo igualmente comovente. Quando nasce uma criança, somos instados a ficar quietos; a criança não pode falar, e nos encontramos como que mudos. Assim é com o Natal. Pois o mistério da noite em que Cristo nasceu é uma noite do Pai, tanto quanto a Páscoa foi uma manhã do Filho, e Pentecostes, um dia do Espírito.

O Pai é Deus em seus mais recônditos e inefáveis recessos. Ele é o mistério diante do qual, no final das contas, somos reduzidos ao silêncio. Mas, também em face de uma criança recém-nascida, vemos um mistério que nos causa admiração e deslumbramento. No Natal, Deus se dispôs a mostrar Seu próprio poder e glória na face do Cristo-Menino. E qual é o mistério nessa face? Que segredo do Pai é esse?

Eu proponho que seja a fecundidade. Sempre que nos aproximamos da matriz de uma nova vida humana, estamos em presença de uma força incomparavelmente além da nossa. Faltam-nos as palavras que, no desespero por encontrá-las, até se tornam vulgares (nossas piores obscenidades fazem referência à procriação). É por isso que sempre achamos que o sexo não deve ser discutido abertamente; não porque seja mau, mas porque é muito bom e próximo demais ao próprio mistério trinitário de Deus para ser confiado às nossas palavras casuais.

O eterno nascimento do Filho no Espírito é o mistério mesmo da Trindade. O nascimento temporal do Filho em Belém marca o começo do mistério da Redenção. Este mistério se desdobra na história tão-somente quando permitimos, também, que ele nasça em nós. O Natal é sobre nascimento, brotos de vida e bebês. Lembra-nos que Deus está vivo e que o amor à vida é o princípio do amor a Deus. E apenas o silêncio tem espaço suficiente para acomodar a imensidão desse milagre.

Um dia esse garoto vai começar a falar, mas a maior parte do seu tempo na Terra será passado em silêncio, começando em Nazaré e até mesmo durante seus anos de pregação. Os sermões de Jesus não foram longos, nem frequentes. É verdade que uma grande parte das palavras dele foi recordada pelos apóstolos e evangelistas e registrada nos Evangelhos; mas eram só faíscas do Fogo que ele era, um Fogo divino que resplandece, por um tempo, na Terra, só porque resplandece para sempre na eternidade. Seu mistério supremo é a sua fecundidade incessante, como a sarça ardente no deserto de Sinai, que arde mas nunca é consumida. Mais importante do que todas as palavras que ele falava foi a Palavra, o Verbo que ele era. Tudo que vale a pena dizer está presente, e com uma eloquência consumada, no Ser d’aquele que é a Verdade.

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