St. Justin Martyr

Narciso negado

narcissus (2)

Sua vida é sua, sua mesmo, e vai ter que se responsabilizar por ela. Mas isso não significa que ela é sobre você, ou acerca de você. Por outras palavras, o tema da sua vida não é Sua Senhoria. Buscar o sentido dela olhando só dentro da sua individualidade espácio-temporal sempre vai fracassar. É o dilema de Narciso. Mesmo esse garoto devia ter notado, enquanto mirava seu lindo rosto na água, que seus olhos, suas narinas, suas orelhas e até seus lábios e sua língua se orientam–todos!–para fora.

Nossa face não tem a capacidade inata de fitar com seus olhos em si mesma, sem ficar vesgo e louco. O espelho pode servir para fazer a barba ou botar a maquiagem, mas além disso, é um gerador incansável de maya (o finito fingindo de ser o infinito, o temporal fingindo de ser o eterno). Nossa vida é sobre algo que transcende a nós mesmos, verdades e valores acima de nós mesmos. Além do rosto, também nosso corpo é uma testemunha inconfundível desse fato.

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O sentido da nossa vida articula-se no tempo e na história como um convite para desvendar um mistério vis-à-vis nossa cara; não é um convite para sentar-nos enquanto alguém pinta nosso retrato. Respondemos a esse convite não apenas caminhando, literalmente, com nossas pernas em busca das coisas que precisamos para sobreviver (idas para o supermercado, a escola, a casa dos amigos, ou até destinos turísticos…). Também peregrinamos com nossos sentidos e imaginação nas artes e nos estudos humanísticos, para juntar à nossa experiência limitada as experiências dos nossos semelhantes na história, amplificando a envergadura do nosso horizonte humano.

Peregrinamos, ademais, com nosso intelecto e razão na filosofia e nas ciências (assim aprofundando o contato da mente com o mundo que a circunda e fecunda). Finalmente, peregrinamos com nosso coração, na espiritualidade e religião, porque existe um imenso mundo também dentro de nós, o qual nos extravasa infinitamente, mas também nos abraça com a atmosfera animadora da eternidade. A sua descoberta é sempre nova, mas sua experiência é intuitivamente perene. É “a beleza tão antiga e tão nova,” de que fala Santo Agostinho.  

Este perene não é um “velho” que passa, mas um perpétuo que se perpetua. O perene é o presente, o permanentemente presente, o implacavelmente atual, o fiavelmente circundante – aquilo que, mesmo negado, continua tacitamente pressuposto. Quando uma obra de literatura ou de arte se torna um “clássico,” é porque ganhou a capacidade de se desengajar da sua situação espacial e cronológica e entrar em contato com uma realidade profundamente presente em todos os tempos. Está sempre acessível àqueles que têm a chave para destrancá-la. Uma tal obra vira um novo limiar à vista de outras paisagens – paisagens as quais, de tempos em tempos, temo que pelos menos vislumbrar. A alternativa é correr o risco de cairmos na água em que o coitado Narciso afogou.

19 - Open Door

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