St. Justin Martyr

Os “professores” do Brasil

Hey, I’m a professor!!!

No início do novo século, eu tive uma licença sabática de um ano em Munique, Alemanha. Na época, eu já era professor concursado em uma universidade federal brasileira. Me apresentei para ser alojado em uma casa em Munique com vários doutorandos do mundo. Já tinha feito meu doutorado em 1988, e também como professor tive certa senioridade entre os colegas, todos mais jovens. Contudo, fiquei impressionado quando as pessoas começaram a me chamar de “Herr Professor” (e com toda seriedade, quase solenidade). Na Alemanha e alguns outros países europeus você vira “professor,” quando muito, apenas anos depois do seu doutorado, e via de regra, só após confeccionar uma segunda tese e passar por outra série de provas. O prestígio é enorme.

Mesmo nos Estados Unidos a palavra “professor” é reservado apenas para doutores que são docentes universitários, e entre eles nem sempre todos (dependendo da instituição). Assim quando me familiarizei mais com o mundo do ensino no Brasil estranhei o uso altamente frouxo e generoso do titulo de professor. Quem me ensina a nadar já é um “professor de natação.” Nas escolas primárias, secundárias, escolas de idioma, disso e daquilo—quem dá aulas, já é professor. No início, achei isso surreal.

Sei perfeitamente bem que a fábrica de “titulações” no mundo acadêmico não é sempre em função de mérito e trabalho. Aqui no Brasil ter uma ladainha de títulos pode significar muito ou pode significar quase nada. Porém, uma certa hierarquia de formações comprovadas no magistério é inevitável.

Hoje em dia, no mundo do youtube, qualquer garoto/a pode abrir um canal e se apresentar como professor de algo. Em vista da crise na educação no país e péssimos desempenhos de brasileiros em testes padronizados (em comparação com outros países), as novas possibilidades apresentadas no mundo digital devem ser encorajadas. Já vi alguns jovens no mundo anglófono oferecendo cursos, ou apenas vídeos de ensino, de altíssima qualidade. Dois exemplos são: Langfocus, um jovem que adora línguas e sabe comunicar melhor a realidade das línguas do que tantos professores institucionais; e Let’s Talk Religion, outro jovem fascinado pelo mundo da religião. Mas é evidente que esses garotos já têm uma formação sólida, estudaram muito e preparam suas aulas com altíssima dedicação. Também não se apresentam como “professores.” Imagino que aceitariam só o título de “tutor.” (Claro, existem também ótimos “tutores” online em português, mas busque bem antes de segui-los!)

Quão diferente tantos outros que achamos no youtube, especialmente quando fazem questão de se apresentar como da esquerda, ou da direita (yawn!) e de juntar “seguidores,” e atrair “likes.” Vivemos em um país de intensa prolixidade. Brasileiros têm até um dom especial de poder falar muito, e até de forma interessante, com muita animação e até com boa vontade e óbvio empenho. Só que, quando analisamos a fala, descobrimos – não sempre, mas infelizmente com certa regularidade, especialmente no mundo do youtube – pouco conteúdo. Eloqüência sem sapiência.

Não é de se esperar a mudança da língua brasileira para restaurar ao título do professor a singularidade que merece. Mas seria bom se os youtubers pensassem duas vezes antes de se apresentar como mestres da sua área de preferência. Sobretudo, deveriam aprender a silenciar muito antes de abrir a boca.

„Wer viel einst zu verkünden hat/ Schweigt viel in sich hinein/ Wer einst den Blitz zu zünden hat/ Muss lange Wolke sein.“  Friedrich Nietzsche

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