St. Justin Martyr

Amor e união – sinônimos?

Kalady1983 002
Foi há 37 anos que passei duas horas conversando em Kalady, Índia, com esse monge da Missão Ramakrishna. Eu havia estado doente por seis semanas antes desse encontro, de modo que estava mais magro e pálido que o usual. O monge era amável e muito disposto a conversar. Então, durante o chá, discutimos os méritos comparativos das espiritualidades hindu e cristã.

Como era de se esperar, eu enfatizei a centralidade do amor na visão cristã de Deus e do homem. Jamais esquecerei o quão energicamente meu anfitrião hindu se animou e, com aquele característico balançar de cabeça e gesto de mão (que só os indianos sabem fazer), retrucou: “…mas o que é amor? Amor é união, é só isso. Amor é união.”

Não me lembro como lhe respondi naquela ocasião – meu cérebro ainda estava nadando em antibióticos –, mas as palavras do monge têm ressoado em minha mente quase todos os dias desde aquela tarde quente no sul da Índia. Eu sabia que ele estava errado. É verdade que Tomás de Aquino ensina que a união de naturezas é causa do amor; a união de vontades pertence à essência do amor; e a união no ser é um efeito do amor. Então, a união está, sem dúvida, um componente essencial. Mas aquelas belas distinções pressupõem algo que estava totalmente ausente na análise de meu interlocutor: a noção de pessoa.

O problema não era apenas o fato dele ter sido muito genérico, como se tivesse dito “diamantes são apenas pedras”, ou “caviar é apenas comida”, despercebendo assim a especificidade crucial do amor enquanto união. Pois as pessoas não são tão-somente espécies de um gênero, ou exemplos de um tipo; elas são únicas e irrepetíveis. A singularidade “dura” evidenciada pela pessoalidade – tornando não apenas cada homem ou cada anjo, mas até mesmo Deus inalienavelmente individual – faz do amor um ato de vontade que une duas subjetividades distintas e ontologicamente densas.

O amor produz, segundo Mestre Eckhardt, uma fusão sim, mas de forma nenhuma uma confusão (fusus non confusus). É comunhão mais que união; abraço e não fundição; eu e tu como nós, e não um tipo de amorfo Uno; “O Senhor esteja convosco”…e não “a Força”. Aliás, o amor é justamente a afirmação de uma distinção sem separação, e não de uma união sem distinção.

Desejar o bem de alguém – sendo o “querer o bem ao outro” o âmago da própria definição do amor – é querer que o outro continue a existir, e que seja cada vez mais plenamente quem é, e o quê é. O amor afirma e celebra a existência individual dos amantes, e nunca visa uma união que cancele, ou diminua suas identidades.

Se fôssemos além das modernas visões psicologizantes acerca da personalidade e revisitarmos as análises patrísticas e escolásticas em toda a sua profundidade metafísica, quem sabe encontrarmos, na melhor metafísica indiana, uma linguagem comum entre as visões hindu e cristã do amor. Eu, por mim, estou convencido que é possível. Porém, não acontecerá por comparações superficiais, ou nivelamentos conceituais, entre Oeste e Leste. O que é preciso é uma apropriação mais profunda da tradição metafísica da pessoa no Ocidente, e, nutrida por essa conquista, uma reflexão mais madura sobre o Self no Oriente.

Não é que amor não é união, mas é uma união dos únicos entes que já possuem uma unidade incomunicável e intrínseca, cada um em si. Por isso, a união que chamamos amor não apenas rejeita homogeneização, mas leva diferença a uma afirmação transcendente e um abraço fecundo: “dois distintos, sem divisão”, nas palavras de Shakespeare:

(…) So they lov’d, as love in twain
Had the essence but in one;
Two distincts, division none:
Number there in love was slain. (…)

The Phoenix and the Turtle

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