Corruptio optimi pessima (port.)

Em Filosofia, os romanos nunca foram páreos para os gregos, mas, com o seu instinto prático e amor à concisão linguística, eles nos legaram uma nutritiva colheita de aforismos latinos. Este é um deles: “a corrupção do melhor é o pior”. Os gregos amavam debater sobre o que ditos como esse significam, e assim nasceu aquilo que chamamos de Filosofia. Porém, os sábios lendários do passado, como Heráclito, chegaram talvez mais perto da fonte da sophia quando condensaram resmas de sabedoria em umas poucas palavras.

Neste caso a intuição é bastante simples. Males costumam surgir apenas quando algo bom for corrompido. O mal não possui consistência, nem existência próprias–é sempre derivado. Como a doença sempre pressupõe a saúde, o mal moral pressupõe uma excelência anterior. Mas quanto mais alta a excelência, ou a bondade, tanto mais funda será sua corrupção. 

Pise numa formiga, e você acaba de criar uma mancha fórmica inofensiva. Mas mate um humano, e produzirá o cadáver mais repelente às nossas narinas. “Sweetest things turn sourest by their deeds, lilies that fester smell far worse than weeds” (“Se há feitos que os mais doces mais azedem, os lírios podres mais que as ervas fedem,” Shakespeare, soneto XCIV, trad. de Vasco Graça Moura).

Nossos corpos são os compostos materiais mais complexos e os objetos físicos mais nobres que conhecemos (especialmente os nossos cérebros). E formigas, apesar de toda a sua elegância segmentada, são comparativamente simples. Em assuntos culturais, observamos o mesmo contraste, mas em escala moral. Se qualquer fulano cometa um crime, mal levantamos as sobrancelhas. Mas quando políticos poderosos ou clérigos supostamente virtuosos caiem, a queda é especialmente dura e nossa indignação mais profunda. Quanto mais baixa a coisa na hierarquia dos bens, ou menos valiosa, menos assusta sua corrupção.

Não se pode abusar do lixo. Não se pode torturar a sujeira. A natureza mesma desses atos reserva-se a vítimas que possuem algum valor intrínseco. Quanto maior o valor, e quanto mais algo se aproxima da perfeição, consequentemente, mais horrível será a sua perversão. E aqui sobrevém o exemplo que ocasionou essas reflexões.

Os escândalos de corrupção no Brasil não me preocupam tanto quanto escândalos análogos dos EUA. Eu sou cidadão de ambos os países, desse modo tenho um direito de expressar minhas impressões amadores. Às vezes, assistindo aos políticos brasileiros debatendo e brigando no parlamento me lembra mais uma turma de garotos desordeiros, que gritam e cospem uns nos outros, do que um grupo de adultos discutindo política. A democracia do país ainda é muito jovem e os seus instintos ainda um pouco ingênuos. Parece que a gente está apenas “brincando” de democracia, assim como as crianças brincam de casinha.

Mesmo correndo o risco de ofender meus leitores brasileiros, digo que a corrupção aqui, conquanto mais visível e mais melodramática, é “de baixa qualidade”; por outras palavras, não é ainda a corrupção do melhor. Os Estados Unidos, onde fui criado, tiveram os seus períodos de grandeza, de enorme produtividade, generosidade e promessa. Porém, tiveram mais de dois séculos para ensaiar aquilo que chamamos hoje de democracia. Apesar de terem se elevado a grandes alturas, desceram nas últimas décadas às profundezas conhecidas apenas pelos outrora grandes quando caíram.

A corrupção por lá é mais sutil, mais sofisticada, mais requintadamente camuflada (e até mais perfidamente financiada). Sua arte é sussurrada e, exatamente por isso, muito mais sinistra. A corrupção norte-americana é como um balé profissional – parece sem esforço; a corrupção brasileira, por sua vez, assemelha mais a uma breakdance de adolescentes – só de ver, cansa-nos.

Portanto, os brasileiros podem se sentir paradoxalmente confortados pelo fato de que, a despeito das aparências, as coisas não estão tão mal quanto poderiam ser, porque o país ainda não está tão bem quanto poderia virar. Apenas quando o Brasil, como se espera, se transforme num grande sucesso como país, é que ele poderá se aventurar em perversidades mais mefistofélicas.

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